Por Luciana Júdice, sócia fundadora do Abreu Júdice Advogados.

Poucas semanas depois de uma perda, a família já está às voltas com documentos, prazos e conversas difíceis. O inventário organiza a herança e define o que cabe a cada um, e muita gente entra nele esperando briga entre irmãos, cônjuges e sobrinhos.

Luciana propõe olhar o inventário como a reorganização da vida da família daqui para a frente. Quando a conversa sai da dor da perda e passa a tratar do futuro, as pessoas pensam com mais clareza e negociam com menos mágoa.

O que costuma destravar a conversa

  • Etapas conhecidas. A incerteza é o que mais alimenta a desconfiança entre herdeiros.
  • Números reais. A avaliação dos bens e o cálculo do imposto feitos sobre dados concretos acalmam a discussão mais do que qualquer argumento.
  • Necessidades, mais do que exigências. Entender do que cada um realmente precisa revela saídas que a disputa esconde.

Um caso comum

A situação aparece com frequência no escritório. A herança de dois irmãos é a casa dos pais e uma reserva em dinheiro. Um deles está endividado e quer vender tudo. O outro foi criado ali e quer manter o imóvel. Levada como disputa, com um advogado de cada lado, a questão pode atravessar anos e terminar com os dois sem se falar.

Levada como conversa, com alguém conduzindo, ela costuma revelar que o irmão endividado precisa de uma quantia definida. A partilha se ajusta: ele recebe o dinheiro e uma parte adicional, o outro fica com a casa e paga a diferença aos poucos. Os dois preservam o que mais importava para cada um.

Esse caminho é a mediação, que a legislação brasileira estimula justamente nas relações de família. Nele, o advogado trabalha para desenhar soluções possíveis, com domínio dos números, dos prazos e dos impostos, sem esquecer que as pessoas do outro lado da mesa vão continuar se encontrando em aniversários e formaturas.

Versão resumida do artigo “Como fazer com que a herança não vire uma guerra em família”, publicado originalmente em A Gazeta, em 12 de julho de 2026.